sexta-feira, 12 de junho de 2020

Um poema...


OFÍCIO

Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.


Gastão Cruz, Os Poemas           



quarta-feira, 3 de junho de 2020

Histórias de Encantar Online

Olá, amiguinhos!

A nossa história de hoje: "Um pequeno crocodilo ternurento que só visto"



Um desafio: poderão fazer um desenho relativo à história escutada e, com a ajuda dos pais, enviá-lo para biblioteca@fundacaoalord.pt.
Mais tarde, quando voltarem a poder visitar a nossa Biblioteca, poderão ver os vossos trabalhos numa exposição dedicada a esta atividade.

Participem! 


Autor: Kulot, Daniela - “Um pequeno crocodilo ternurento que só visto”. Matosinhos : Kalandraka, 2011

segunda-feira, 1 de junho de 2020

1 JUNHO | DIA MUNDIAL DA CRIANÇA


O Dia Mundial da Criança não é comemorado no mesmo dia em todos os países. A ONU (Organização das Nações Unidas) estabeleceu-o a 20 de novembro, mas existem países que, como Portugal, comemoram a 1 de junho e outros, como o Brasil, a 12 de outubro.
Tudo remonta a 1945, depois da 2º Guerra Mundial: as crianças sofriam as consequências de uma guerra devastadora – passavam fome, não tinham acesso à escola e eram exploradas pois trabalhavam duramente desde muito pequenas para ajudar no orçamento familiar.

Em 1950, a Federação Democrática Internacional das Mulheres sugeriu à ONU a criação de um dia dedicado às crianças de todo o mundo.

Com este dia pretende-se celebrar os direitos das crianças:
• O afeto, amor e a compreensão;
• Alimentação adequada;
• Cuidados médicos;
• Educação gratuita;
• Proteção contra todas as formas de exploração;
• Crescer num clima de Paz e Fraternidade universais.

Em 1959, Portugal reconhece os direitos fundamentais das crianças. 

Para comemorar este dia, deixamos uma prendinha.

Feliz DIA DA CRIANÇA 2020!

O canhão da paz


 Vivia na longínqua Rússia um famoso fundidor de sinos chamado Sergei Vassilevitch Varbaratov. O som dos seus sinos era de tal forma harmonioso que, sempre que tocavam, até os anjos paravam para os escutar.

 Sergei Vassilevitch era casado com uma mulher alta e robusta de nome Natalia Sofia e tinham dois filhos. Um chamava-se Leonid Michail e era um rapaz de boa índole. Ainda muito novo, já ajudava na oficina. Em pouco tempo passou a conhecer todos os segredos da arte da fundição de sinos. O outro filho, Vladimir Nikolai Varbaratov, era, no entanto, uma criança singular. Fugia da oficina do pai, metia o nariz em livros poeirentos, misturava-se com os criados e criadas, e fazia todo o tipo de experiências com flores, ervas e verduras nos terrenos do pai.

 "Se fosse alto e forte como o irmão," suspirava o pai, "ainda podia comprar-lhe uma quinta para ele ganhar a vida…"

 Porém Vladimir Nikolai não era alto e forte, mas de compleição frágil, e em nada se assemelhava a um agricultor. Não sabendo o que fazer com o filho mais novo, o pai elevava muitas vezes os olhos ao céu e exclamava:
 — Só Deus sabe o que há-de ser do rapaz!
 — Santa Bárbara, intercede por ele — acrescentava a mãe, dirigindo-se à padroeira dos sineiros.
 Assim ia passando o tempo, e as preocupações de Sergei Vassilevitch cresciam de ano para ano.

 Certo Inverno, um enviado do Czar chegou a casa de Sergei Vassilevitch: este deveria apresentar-se sem demora no castelo. "De certeza que se trata de uma encomenda para um novo sino", pensou Sergei Vassilevitch. Satisfeito, vestiu a sua bela pele de marta e seguiu no trenó rumo a Moscovo, onde o Czar o esperava em pessoa.

 Mas desta vez não se tratava de um sino. Pelo contrário, o Czar referiu-lhe um grave problema: os Tártaros atacavam constantemente as aldeias fronteiriças, pilhavam os campos e as pessoas.
 — Estão cada vez mais ousados — rugia o Czar. — Não sei como proteger o meu reino.
 — A minha arte também não é de grande ajuda neste caso, Meu Senhor — disse Sergei Vassilevitch. — Os sinos anunciam a paz e não a guerra.

 — Tens razão — admitiu o Czar — mas diz-se por todo o país que ninguém sabe tanto da arte de fundir metal como tu. Peço-te que me faças um canhão tão grande e poderoso que nenhum na Terra se lhe iguale. Quero colocá-lo no vale por onde entram os Tártaros. Há-de estrondear como um trovão e, como um raio, derrubar os inimigos. À vista das suas balas, os Tártaros serão obrigados a fugir de volta para as montanhas.

 — Nunca fiz nenhum canhão, Meu Senhor — objectou a medo Sergei Vassilevitch.
 A hesitação do fundidor de sinos não agradou ao Czar.
— Mas posso tentar, seja lá como for — acrescentou Sergei rapidamente ao ver a expressão de descontentamento do Czar.

 Passou semanas e semanas a fazer planos juntamente com o filho mais velho. Quando a Primavera chegou, estava preparado. O molde de barro foi cozido e acendeu-se o forno. O minério estava pronto para ser derretido. No dia da fundição, o Czar veio pessoalmente na sua carruagem doirada, acompanhado por alguns generais, ver o que Sergei Vassilevitch projectara.

 Com enormes caçarolas verteu-se para dentro da forma uma grande quantidade de minério. Os gases sibilavam ao sair pelas aberturas do cano. Finalmente, ao cabo de muitas horas, o metal arrefeceu e o molde foi cuidadosamente partido. Apareceu então o maior e o mais impressionante cano de canhão que o mundo alguma vez vira. A superfície estava coberta com as mais esplêndidas figuras em relevo.

 O Czar apreciou minuciosamente aquela obra de arte. O que maior admiração lhe causou foi a imagem de Santa Bárbara. Desenhada na parte de trás do cano, com uma das mãos apoiava-se numa torre, enquanto na outra segurava um ramo em flor.
 — Se o canhão não fosse tão urgente por causa da ameaça dos Tártaros — disse o Czar — só por esta imagem de Santa Bárbara teria um lugar de honra no meu castelo. Será baptizado com o nome de Canhão de Santa Bárbara.
 — Isso não vai agradar muito a Santa Bárbara, que bem sabe como são amargas as guerras e as mortes violentas — não pôde deixar de murmurar Natalia Sofia.

 O cano foi içado com um guindaste e fixado à carreta, à qual foram atrelados dezasseis fortes cavalos, que só ao fim de grande esforço conseguiram pôr aquele monstro em andamento.

 O Czar voltou-se para Sergei Vassilevitch e disse:
— És um grande mestre da fundição, Sergei Vassilevitch Vabaratov. Criaste uma obra magnífica, por isso quero satisfazer um desejo teu. O que desejares, ser-te-á concedido.
Sergei Vassilevitch reflectiu longamente. O olhar poisou no filho mais novo, Vladimir Nikolai, discretamente afastado.
— Meu Senhor, agradeço-vos essa mercê. Tenho, de facto, um grande desejo. O meu filho Vladimir Nikolai, que ali vedes, não é dotado para a fundição. Não sei bem o que fazer com ele, o que me causa muita pena e aflição. Se o tornásseis coronel do canhão de Santa Bárbara e dos artilheiros, retirar-me-íeis um grande peso.

 Os generais que acompanhavam o Czar riram-se daquele desejo.
 — O prometido deve ser cumprido — disse no entanto o Czar.

 E Vladimir Nikolai foi vestido com um faustoso uniforme e calçado com macias botas de couro. Montado no seu cavalo malhado, parecia mesmo um pequeno coronel.

 Por sorte, pertencia ao grupo dos artilheiros um velho cabo experiente que percebia do ofício. O canhão foi posto em andamento juntamente com setenta e sete pesadas balas e dois carros a abarrotar de sacos de pólvora. Vladimir Nikolai não se voltou para os pais uma única vez, para que não lhe vissem as lágrimas.


 A Rússia é um país vasto como o céu. Só ao fim de muitas semanas é que o grupo chegou com o seu pesado canhão ao vale por onde os Tártaros costumavam passar quando invadiam o país. O canhão foi colocado numa colina suave no meio da erva. Reinava lá do alto como um violento dragão feroz, cintilando ao sol. O cabo mandou construir uma sólida torre onde armazenou os sacos de pólvora e as setenta e sete balas de canhão. Também colocou vigias para darem sinal no caso de se aproximarem grupos de Tártaros.

 Vladimir Nikolai não mostrava grande interesse por todas aquelas coisas. Caminhou em volta do canhão, desfazendo a terra escura com os dedos enquanto murmurava para si:
 — A terra está repousada e é boa. É terreno ideal para trigo doirado.

Ocasionalmente aparecia um Tártaro, e por vezes dois ou três, montados num pequeno cavalo. O cabo achava, que por tão poucas pessoas, não valia a pena carregar o canhão.  

 Em vez disso, preferia exibi-lo, vangloriando-se:
 — Com um único tiro, o canhão de Santa Bárbara mata uma centena de pessoas, ou mais.
Mandou trazer da torre uma das setenta e sete pesadas balas para que a admirassem e lhe tocassem. Os Tártaros, no entanto, não se atreviam a aproximar-se do canhão. Aquela arma admirável impressionava-os imenso e nas suas tendas relatavam pormenorizadamente o que viam.

 Naquele ano não houve um único ataque em toda a região.

 Entretanto, os soldados de artilharia tinham cavado uma fonte, construído casas de madeira com cercas coloridas em redor. Embora continuasse a brilhar como ouro puro, o canhão era limpo uma vez por semana. Finalmente todos os trabalhos terminaram. Os artilheiros deitavam-se preguiçosamente ao sol e alguns já tinham ganho barriga. Os dezasseis cavalos também se tinham tornado mais redondos, pesados e preguiçosos.

 O Inverno chegou. De repente, Vladimir Nikolai começou a andar numa azáfama. Na aldeia mais próxima encontrara um bom ferreiro ao qual mandou fazer sete arados a partir de sete balas. Para avivar o fogo da forja, o ferreiro espalhava ocasionalmente alguma pólvora pelas chamas, mas apenas o suficiente para não fazer a casa ir pelos ares.

 O cabo autorizara: setenta balas continuavam a ser suficientes.

 Assim que a Primavera afastou o Inverno, Vladimir Nikolai arrancou os soldados da vida ociosa que levavam. Mandou-os atrelar os arados aos cavalos e arar a terra que se estendia até perder de vista. A maioria dos soldados tinha nascido no campo e sabia abrir sulcos em linha recta. A mando do Coronel, espalharam sementes de grãos de trigo cuidadosamente escolhidas. Ao fim de pouco tempo, o canhão encontrava-se no meio de uma ondeante e loura seara.

 O tempo ajudou Vladimir Nicolai. Em finais de Agosto já a colheita estava concluída e o grão malhado. Mas onde guardar tão abundante colheita? Sem hesitar, Vladimir Nicolai mandou retirar todas as balas da torre e guardou os sacos de pólvora numa barraca de madeira. Em seguida, fez armazenar o cereal na torre.

 Os Tártaros vinham cada vez com mais frequência. Durante todo o ano tinham observado o que os soldados faziam. Vladimir Nikolai foi afável. Ofereceu-lhes trigo, pois a colheita fora tão grande que nem em três anos os soldados e os dezasseis cavalos a consumiriam.
— Não querem também semear algum grão? — perguntou certo dia Vladimir Nikolai aos Tártaros que tinham ido buscar alguns sacos de cereal.
— Vamos perguntar — e saíram a galope.

 Um dia mais tarde, chegaram muitos desconhecidos montados nos seus pequenos cavalos. O Cabo deu ordem para se carregar o canhão a toda a pressa. Mas, na barraca, a pólvora humedecera e o canhão nunca daria tiro algum. Também não foi necessário. O Príncipe dos Tártaros cavalgava no meio da sua multidão de aparência selvagem, magnificamente vestido com peles e trazendo ao pescoço uma corrente de garras de urso.

 Vladimir Nikolai recebeu-o amavelmente, ofereceu-lhe um copo de vinho e perguntou:
— Então, o que tencionam fazer? Também vão arar a terra, semear e colher?
— Gostaríamos de cultivar a terra mas não podemos fazê-lo com as mãos. Não temos arados nem sementes — respondeu o Príncipe Tártaro.
— Isso resolve-se depressa. — prometeu Vladimir Nikolai.

 Mandou fundir quarenta e nove balas para fabricar arados.

 "Agora só fico com vinte e uma balas de canhão e nem uma migalha de pólvora seca," pensou o cabo, muito preocupado. "Esperemos que os Tártaros não nos ataquem."

 Os Tártaros nem em tal pensavam. Na Primavera, começaram a arar e a semear, e finalmente puderam colher o seu próprio cereal. Mas nas suas tendas não havia lugar para tantos sacos de grão e começaram a construir casas sólidas. Vladimir Nikolai deu ordem aos soldados para os ajudar. Os soldados acabaram por reconhecer que os Tártaros não eram tão assustadores como tinham pensado. Alguns chegaram até a casar-se com bonitas mulheres tártaras.
— Porque é que assaltavam as aldeias? — perguntavam de vez em quando os soldados.
— Foram a fome e a necessidade que nos obrigaram — responderam.

 E alguns confessaram que fora também o gosto pela aventura.

  
 Ao fim de três anos, o Czar enviou um mensageiro. Vladimir Nikolai Varbaratov foi promovido a general e recebeu uma medalha de ouro, pois durante todos aqueles anos não chegara a Moscovo uma única queixa de ataques por parte dos Tártaros. Mais tarde, o Czar ordenou que o canhão de Santa Bárbara fosse levado para o seu castelo, onde ainda hoje pode ser visto.

 Os artilheiros escolheram então Santa Bárbara para sua padroeira, pois um canhão que nunca tenha de disparar balas é o sonho de paz da maioria dos soldados…

 O Czar chamou Vladimir Nikolai à corte e nomeou-o seu conselheiro.

 Sergei Vassilevitch Varbaratov e a esposa, Natalia Sofia, estavam felizes com os dois filhos e não sabiam de quem estar mais orgulhosos, se do robusto fundidor de sinos, Leonid Michail, se do inteligente fundador da paz, Vladimir Nikolai.

Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, Omnibus, 2004
(Tradução e adaptação)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Histórias de Encantar Online

1, 2, 3… uma história de cada vez

Olá, amiguinhos!

Agora, para protegermos a nossa saúde, não podemos receber-vos na biblioteca, onde todos gostam de ouvir as histórias que vos contamos com muito agrado. Mas nós vamos até vossas casas, levando os livros e as histórias narradas com o mesmo carinho e entusiasmo.

Esta atividade é apresentada em vídeo publicado semanalmente, à 4ª feira, neste blog e no Facebook da Fundação ALORD.

Um desafio: poderão fazer um desenho relativo a cada história escutada e, com a ajuda dos pais, enviá-lo para biblioteca@fundacaoalord.pt.
Mais tarde, quando voltarem a poder visitar a nossa Biblioteca, poderão ver os vossos trabalhos numa exposição dedicada a esta atividade.

Participem!

A nossa história de hoje: “Ungali”

Autor: SERRA, Elsa - “Ungali”. Porto: Porto Editora, 2015


segunda-feira, 18 de maio de 2020

18 MAIO | Dia Internacional dos Museus


Tendo estado encerrados durante dois meses, devido à pandemia Covid 19, os museus e monumentos de Portugal reabrem hoje as suas portas ao público — a data em que se celebra o Dia Internacional dos Museus.

Assinalando esta efeméride, sugerimos um roteiro virtual de alguns museus que podem ser visitados sem sair de casa, num tempo em que a prudência aconselha ainda o maior resguardo possível.

A Internet permite, assim, o contacto permanente com a cultura e a arte, enquanto se aguardam dias mais seguros para visitas presenciais





Muitos outros museus nacionais e internacionais podem ser visitados através do Google Arts and Culture.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Ler em tempo de pandemia


O período difícil que atravessamos alterou a forma como acedemos à cultura.

A cultura não está sujeita a quarentena, pelo contrário, pode ajudar-nos a superar as limitações a que estamos obrigados: sentar num sofá a ler um livro ou a ouvir música, visitar museus através da internet, ver um filme ou assistir a programas de informação e de divulgação cultural na televisão podem proporcionar-nos momentos de lazer, de evasão, de descanso e de tranquilidade, fundamentais nestes dias. Os livros, a música, o teatro e o cinema continuam a fazer-nos companhia, mas dentro das nossas casas.

Vivemos, agora, dias de retoma lenta e cautelosa de hábitos da nossa vida.

Neste contexto, e querendo servir todos os seus utentes após o encerramento imposto pelo estado de emergência, a Biblioteca reabriu no passado dia 11 de maio, embora com restrições no número de leitores presenciais. As requisições para leitura domiciliária já estão disponíveis, feitas presencialmente ou através de reserva no nosso catálogo online. 

Mas este é também um tempo em que o acesso à cultura está facilitado e à distância de um clique.

Assim, continuamos a deixar aqui sugestões de leitura e outras, sempre com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento cultural de cada um.

O ÚLTIMO CONTO DO ESCRITOR SÉRGIO SANT’ANNA

O escritor brasileiro Sérgio Sant’anna, de 78 anos, morreu este domingo, dia 10 de maio, vítima de Covid-19.

Sérgio Sant’Anna foi autor de romances, como “Confissões de Ralfo” e “Um crime delicado”, e de livros de contos, como “O homem-mulher”.

Sérgio Sant'anna, um mestre do conto em língua portuguesa, venceu três prémios Jabuti, o principal prémio da literatura no Brasil. O seu último livro, 'Anjo Noturno', foi publicado em 2018.

Em ‘A dama de branco’, o seu último conto, o autor descreve a contemplação de uma mulher em tempos de isolamento, ao som de ‘Gnossiennes’.
(Nota: Gnossiennes são um conjunto de composições para piano escritas pelo francês Erik Satie no fim do século XIX.)
Leia o conto ao som de Gnossiennes 1 


A dama de branco



Temos a sorte dos apartamentos em nosso edifício serem providos de sacadas. Embora pequenas, as sacadas são uma abertura para o universo. Agora, com a diminuição do monóxido de carbono na atmosfera, com muito menos carros circulando no Rio, várias estrelas se tornaram visíveis. Estou pensando em comprar um telescópio pela internet. Enquanto isso, contemplo o céu a olho nu mesmo. Me embriaga não passar de um ser ínfimo no cosmos.

Mas o que me leva a vir para a sacada de madrugada, mais do que as estrelas, é contemplar a dama de branco, que circula pelo estacionamento a céu aberto do edifício, sempre às três da manhã. Todos estão dormindo e fico contente com isso, pois, com ninguém mais a contemplá-la, é como se a dama de branco me pertencesse exclusivamente.

Entendi por que ela sempre vem a essa hora. É porque não há ninguém a importuná-la, reclamar que ela não está usando máscara, como se tornou obrigatório fora de casa. Imagino ver as suas feições, reparar como é bonita. Uma beleza singular, que não consigo descrever. É compreensível que ela queira caminhar a céu aberto, e ao mesmo tempo protegida pelos porteiros, que permanecem em seus abrigos nos portões do condomínio. As ruas de noite são sempre perigosas e confrangeria meu coração se algum mal acontecesse com a dama de branco.

Com minha imaginação solta, penso na dama de branco como uma sílfide, que parece levitar acima do solo, com o seu vestido comprido, esvoaçante. Penso nela como uma mulher pura, inclusive porque nestes tempos de isolamento até os namorados não dormem mais juntos, nem se encontram. Não consigo imaginá-la na cama com homens, esses seres brutos. Com outra mulher, talvez, mas agora deve dormir sozinha, quero crer.

Para mim ela está em outra dimensão. Não tenho propriamente uma religião, mas como guardo dois bons livros de astronomia, que volta e meia releio, penso na grandeza para mim incalculável do universo. Trilhões de astros, bilhões de anos-luz. Mas penso que, se houver um Deus, Ele não é bom, como dizem, mas indiferente à sorte humana, isso se houver um pensamento de Deus.

No entanto, como imaginá-Lo? Não deixo de usar para Ele as maiúsculas de praxe. Cheguei a refletir, sem nenhuma certeza, só dúvidas, se por acaso Ele ainda não estará sendo criado, muito aos poucos, pela mente humana?

Mas o nada também não me angustia. Penso nele como uma espécie de barato como o produzido pelo ópio, que experimentei duas vezes na Meca que é Nova York, onde, com as informações certas, pode se experimentar um pouco de tudo. Mas para conseguir o ópio tinha de digitar uma senha no celular, ora vejam só. Nem sei o que aconteceria comigo se continuasse naquela cidade. Experimentava a droga com uma mulher que eu não amava nem desejava, como ela também não a mim, mas, depois que eu a pagava, gostava de se deitar comigo, drogada, ambos silenciosos.

Não consigo deixar de pensar na dama de branco deitada comigo, quem sabe nua, com seu corpo esguio, mas isso me parece um sacrilégio. A dama vem à minha mente como uma pessoa solitária como eu, não imaginando que a possam observar em sua caminhada, nesta hora tão deserta. Nem transaríamos, pois já estou com setenta e nove anos.

Crio para a dama de branco uma história. Ela me conta sobre sua infância. De como gostava de passear em sua rua de Botafogo de mãos dadas com uma amiga muito especial. De como ela amava essa amiga que morreu muito jovem, de uma doença misteriosa. Mas antes teve tempo de falar que a esperaria. Não foi egoísta a ponto de pedir que a dama de branco também a esperasse ou partisse logo para se juntar a ela. Então a dama de branco teria experimentado várias relações, sempre com um sentido de incompletude, até que chegou este tempo da peste e ela está em isolamento como eu. Às vezes, penso que a dama de branco é a própria morte. Sei que isso é um modo de prendê-la e logo me penitencio e sei que em outro momento pensarei outra coisa. A morte não passa de uma obsessão minha.

Pelo menos é isso que imagino neste momento. Noutra hora posso pensar que ela fora casada com um pianista, um jovem amável e sensível. Depois apago, por ciúmes, esse pianista. Então é ela a pianista e eu a escuto embevecido. Não, sou eu o pianista e toco para ela. Tento compor no pensamento uma melodia, mas logo me vem à cabeça as Gnossiennes, de Satie, que eu escutava compulsivamente na sala, antes de vir para a varanda para acompanhar a dama de branco indo e voltando na área do estacionamento, com a leveza de uma bailarina. Será ela uma bailarina? Satie anotou que as Gnossiennes deviam ser tocadas com convicção e uma tristeza rigorosa. Eu tenho essa tristeza rigorosa, que me faz feliz. Os títulos de Satie são tão interessantes quanto suas obras: Três peças em forma de pera, Prelúdios flácidos, Desespero agradável.

Satie compondo em seu confinamento, só saindo, sempre de terno negro, para encontrar seus amigos dadaístas. Como eu gostaria de estar entre eles. Não, quero viver este momento mesmo. Quero ser eu próprio. Mas quem sabe a dama de branco tocando as Gnossiennes para mim a seus pés? Satie e eu amamos essa tristeza lírica. E a dama de branco, será? Não, penso mesmo que ela é etérea, a caminhar quase sem tocar o solo. Será que não pressente o meu olhar? Poderá ela me amar como eu a amo?

Satie fundou uma religião denominada “Igreja Metropolitana da Arte de Jesus Condutor” e excomungava quem não aderisse a ela. Eu adiro a ela e quem sabe poderia me casar com a dama de branco segundo os seus rituais, ao som da Gnossienne 1. Eu teria prazer em cozinhar para ela, ser seu escravo. Não, não, porque aí haveria os perigos inerentes ao hábito. Prefiro vê-la como que levitando lá em baixo.

Ah, mas como eu gostaria de deitar com a dama de branco numa cama, consumindo ópio. Como não tenho ópio, vai este baseado mesmo. Seria como se nos beijássemos, misturando nossas salivas em sua seda.

Sérgio Sant’Anna, Conto publicado originalmente na revista brasileira Época.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Um poema...


Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Chico Buarque

Fonte: Musixmatch


Escritor do mês | maio


CHICO BUARQUE
(1944/)


Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque, nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Compositor, cantor e ficcionista, é um dos mais célebres e admirados artistas de língua portuguesa.


Publicou várias peças de teatro, entre as quais a Ópera do Malandro, e uma novela antes de se estrear no romance, em 1991, com Estorvo, pelo qual recebeu o Prémio Jabuti, o mais importante prémio literário no Brasil. Seguiram-se Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009), estes dois últimos distinguidos também com o Prémio Jabuti para melhor romance do ano. Os últimos romances editados são O Irmão Alemão (2014) e Essa gente (2019).

Todos os seus romances estão publicados em Portugal pela Companhia das Letras, assim como Tantas Palavras, um livro que reúne todas as suas letras acompanhadas por um retrato biográfico escrito por Humberto Werneck.

Em 2019 Chico Buarque viu a sua obra literária reconhecida com a atribuição do Prémio Camões, a mais alta distinção para autores de língua portuguesa.




Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira. Certa manhã, ao deixar o metrô por engano numa estação azul igual à dela, com um nome semelhante à estação da casa dela, telefonei da rua e disse: aí estou chegando quase. Desconfiei na mesma hora que tinha falado besteira, porque a professora me pediu para repetir a sentença. Aí estou chegando quase... havia provavelmente algum problema com a palavra quase. Só que, em vez de apontar o erro, ela me fez repeti-lo, repeti-lo, repeti-lo, depois caiu numa gargalhada que me levou a bater o fone. Ao me ver à sua porta teve novo acesso, e quanto mais prendia o riso na boca, mais se sacudia de rir com o corpo inteiro.

 Disse enfim ter entendido que eu chegaria pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha, depois um joelho, e a piada nem tinha essa graça toda.

Tanto é verdade que em seguida Kriska ficou meio triste e, sem saber pedir desculpas, roçou com a ponta dos dedos meus lábios trêmulos. Hoje, porém, posso dizer que falo o húngaro com perfeição, ou quase. Quando de noite começo a murmurar sozinho, a suspeita de um ligeiríssimo sotaque aqui e ali muito me aflige. Nos ambientes que frequento, onde discorro em voz alta sobre temas nacionais, emprego verbos raros e corrijo pessoas cultas, um súbito acento estranho seria desastroso.

Para tirar a cisma, só posso recorrer a Kriska, que tampouco é muito confiável; a fim de me segurar ali comendo em sua mão, como talvez deseje, sempre me negará a última migalha. Ainda assim, volta e meia lhe pergunto em segredo: perdi o sotaque? Tinhosa, ela responde: pouco a pouco, primeiro o nariz, depois uma orelha... E morre de rir, depois se arrepende, passa as mãos no meu pescoço e por aí vai.

Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local.

Chico Buarque, Budapeste, D. Quixote,14º ed.,2011

Chico Buarque | Caravanas Ao Vivo (Show Completo)


O Leituras sugere...





...para maio 


O Monstro que Veio do Gelo
 David Walliams; Ilustração: Tony Ross


Em 1899, em plena época vitoriana,  Elsie, uma órfã que vive nas ruas de Londres, ouve falar do misterioso Monstro do Gelo - um mamute lanudo de 10 000 anos, encontrado e capturado no Pólo Norte, perfeitamente preservado no gelo, e que vai fazer parte da coleção do Museu de História Natural. Curiosa, a menina faz tudo para saber mais sobre ele. E não tarda a dar de caras com a criatura, sentindo de imediato um enorme afeto por ela.

Elsie embarca na aventura da sua vida, partindo de Londres e atravessando o alto mar, para ajudar o mamute a regressar a casa.

Na maior e mais épica aventura de sempre, David Walliams mostra que há heróis de todos os tamanhos e feitios.

Com um enredo cheio de aventuras, peripécias e imagens muito expressivas, este livro é muito divertido e transmite, ao mesmo tempo, um conjunto de valores morais importantes.

Há ainda um posfácio onde se poderá aprender mais sobre mamutes lanudos, bem como conhecer o verdadeiro espírito vitoriano.

terça-feira, 5 de maio de 2020

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA



A 5 de maio de 2020 comemora-se, pela primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa – data consagrada pela UNESCO no calendário internacional, reconhecendo, assim, a importância da nossa língua a nível mundial: é a língua mais falada no hemisfério sul e a quarta a nível mundial.
O português é falado por mais de 260 milhões de pessoas nos cinco continentes, ou seja, 3,7% da população mundial.

É língua oficial dos nove países-membros da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) e Macau, bem como língua de trabalho ou oficial de um conjunto de organizações internacionais como a União Europeia, União Africana ou o Mercosul.

Para assinalar esta efeméride destacamos alguns dos vários livros de autores de diferentes nacionalidades, escritos em português, que podem ser requisitados na nossa Biblioteca.