terça-feira, 3 de novembro de 2015

É tempo de compotas!


Do livro: Diário X, s/editora, 1966, Coimbra

O outono é uma das mais bonitas estações do ano, graças à diversidade de cores, cheiros e sabores que nos oferece. As árvores que vão deixando cair as suas folhas e os frutos maduros e suculentos proporcionam-nos uma paleta rica de cores:
· o amarelo e o laranja – nas abóboras, nos marmelos, nos dióspiros, nas peras.
· o vermelho – nas maçãs, nos tomates, nas romãs;
· o castanho – nas castanhas, nas avelãs, nas amêndoas e nas nozes;
· o roxo – nas uvas e nos figos.


Sendo o outono um tempo rico em frutos, podemos aproveitá-los, para os consumirmos ao longo do ano.
Como?
Fazendo compotas.
Fazer compotas é um processo tradicional de conservação de frutos, através do açúcar.


Livros de receitas – as nossas sugestões:

Doces, Compotas e Geleias

Editorial Presença

100 Maneiras Compotas, Geleias e Marmeladas

Livraria Civilização Editora

Doces de Frutos - Compotas e Geleias

 Colares Editora

Na nossa Biblioteca:

                                      Compotas e conservas                                        de Elisabeth Lambert Ortiz
Livraria Civilização Editora

Sobremesas - compotas e queijos
Col. Essencial da cozinha
Editora QuidNovi

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Ainda a propósito de compotas…

A doçura
Manuel Jorge Marmelo


Anita vende a doçura em frascos. Enche-os de compota de fruta, tapa-os e cola-lhes uma etiqueta, mas, em vez de escrever compota disto ou compota daquilo, de mirtilos ou de pêssego, de marmelo ou de morango, arredonda a letra e escreve apenas Doçura. Senta-se no passeio com os frascos defronte, expostos no asfalto, junto aos pés, e não lhe faltam clientes. A compota vende-se muito bem e ninguém regressa para reclamar: quem compra julga que a doçura está toda nos olhos de Anita.


 Anita vende, pois, a doçura que tem no olhar e a doçura que embala nos frascos de vidro. É isso o que faz, sentada no passeio defronte do Mercado Sucupira, pelo menos desde que desistiu de escrever poemas.

 Na escola, a professora de Anita não se cansava de lhe gabar a delicadeza das composições que escrevia. A mestra ordenava às crianças que escrevessem uma composição sobre isto ou aquilo, sobre a Primavera ou sobre o ilhéu defronte da baía da Gamboa, e o que Anita fazia era sempre igual: escrevia no topo da folha pautada a palavra Composição com essa mesma letra indecisa e pequena que hoje lhe serve para escrever Doçura nas etiquetas dos frascos de doce — e depois deixava que a cabeça a levasse para longe, para o mundo impalpável das coisas que estão escritas nas páginas dos livros. Escrevia sobre bosques impenetráveis e montanhas verdejantes, sobre belos guerreiros medievais e cidades de prédios muito altos, ainda que não houvesse na ilha nenhuma das coisas que descrevia e, por isso, ela nunca tivesse visto bosque algum, nenhuma paisagem alpina ou um príncipe que fosse.

 E um dia, mais do que gabar-lhe a composição e afagar-lhe a carapinha, a professora disse:

— Um dia ainda vais ser poeta, Anita.

 E Anita conseguiu imaginar que era poeta, que escrevia livros iguais aos que gostava de ler à noite, quando a luz faltava na Praia e a cidade voltava a ser um sítio apenas iluminado por candeias e velas. Cresceu, por isso, julgando que, um dia, escreveria poemas e frases bonitas sobre a sua ilha e que as crianças das outras partes do mundo leriam o que escrevesse e sonhariam com a baía morna onde, às vezes, a lua cheia vem namorar o mar — do mesmo modo que eu, estando longe, vejo Anita sem sequer a ver. Estou num sítio ao Norte do mundo, no Inverno, longe do mar, num prédio alto e cinzento, igual aos que Anita imagina quando tem que escrever uma composição sobre A Cidade. Não vejo, de onde estou, o Mercado Sucupira, nem essa Avenida de Lisboa em cujo passeio Anita se senta para vender a Doçura. Nesta janela, tendo defronte apenas as janelas gémeas de um prédio igual, encosto a face ao vidro da varanda e adivinho o frio que faz lá fora (todo o frio me parece muito desde o dia perverso em que o Verão termina). Invento o frio e encolho ainda mais dentro do corpo. É aqui, porém, que, encostado ao vidro que me separa do Inverno, espero que venha o raio morno que o sol derrama quando se eleva acima da massa sombria dos prédios da cidade. Então, e por um instante, fecho os olhos, esqueço o Inverno e imagino que ainda é Verão, que a cidade lá fora é a Praia e que Anita está sentada no passeio a vender Doçura desde o dia em que soube que não seria poeta.

 Ora a invejo, ora me enterneço com a doçura que guarda e com o modo que tem de a entregar ao mundo, ali sentada no passeio escalavrado da Avenida de Lisboa: agita uma revista velha diante do peito para se refrescar e põe a mão em pala diante dos olhos (para que o sol não derreta o açúcar que neles há). As outras pessoas passam e veem Anita vendendo a Doçura em frascos. Muitas param para comprar: uns levam apenas a compota, outros vêm pela imensa doçura que há nos olhos da menina-moça, pelo sorriso imenso que o rosto dela desenha.

 Eu, que não vejo Anita, vejo claramente o riso dela, o lenço branco que Anita tem enrolado na cabeça, a camisa cor-de-rosa, as argolas douradas que tem nas orelhas, a saia de chita, o chinelo de plástico que abriga os pés dela. Imagino até que, às vezes, Anita lance no ar um pregão tímido

— Nha leba doçura pa casa

que o barulho do trânsito o abafa. Que, quando regressar a casa depois de ter vendido todos os frascos, Anita levará o dinheiro apertado na mão, firmemente, feliz por ter vendido toda a compota — e triste por não ter podido ser poeta. Vai caminhando de cabeça erguida, devagar, como se o seu andar fosse uma pausa entre a ida veloz dos passos de uns e a vinda apressada dos passos dos outros. Não escuta os piropos dos rapazes, não ouve o barulho da cidade: vai inventando poemas que não escreverá jamais, pois cedo a mãe lhe explicou que

— Não é poeta quem quer, é poeta quem a vida deixa. Poesia de pobre é comida na mesa para encher barriga.

 Quando a noite vem e não há luz na Praia, quando o zumbido das coisas elétricas cessa e se pode escutar o murmúrio da terra e os sussurros da vizinhança, Anita debruça-se na janela da casa e fica a contemplar o corisco breve das estrelas. Imagina poemas que não escreve e inventa paisagens nevadas, belos príncipes crioulos montados em alazões, cidades de altíssimos prédios onde todos se conhecem pelo nome próprio e se cumprimentam à tardinha quando regressam a casa — tudo pode ser visto nas estrelas diante da janela do quarto de Anita.

 Quando aí está, esperando que os pontos luminosos da noite se ordenem e inventem mundos, Anita pensa que ainda é poeta, que são poemas as frases com que imagina príncipes crioulos e cidades imensas de vidro e aço. Sonha os livros que escreveria se não fosse menina pobre e a vida tivesse permitido que o vaticínio da velha mestra se concretizasse.

(— Um dia ainda vais ser poeta, Anita)

 Às vezes, pensando nisto, Anita ainda se entristece. Olhando-a a partir da minha janela do país onde é quase sempre Inverno, vejo que as estrelas se lhe refletem no orvalho dos olhos. Vejo isto e enterneço-me. Daqui longe fecho os meus olhos e sussurro bem baixinho a única verdade que existe — para que ela a oiça: que não há no mundo todo maior poema do que vê-la, sentada no passeio, a vender a Doçura que tem nos frascos. E nos olhos.


O prazer da leitura
Edição conjunta de FNAC/Teorema publicado por ocasião do Dia Mundial do Livro
23 de Abril 2007
(excerto)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sábados na Biblioteca | 24 de outubro

No dia 24 de outubro, a Biblioteca estará aberta no seu horário habitual: 
9h - 12h30 e 13h30 - 18h.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

ÁLVARO DE CAMPOS   
Heterónimo de FERNANDO PESSOA

Álvaro de Campos é um dos heterónimos mais conhecidos, verdadeiro alter ego do escritor português Fernando Pessoa, que fez uma biografia para cada uma das suas personalidades literárias, a que chamou heterónimos.


Caricatura de Vasco

Engenheiro naval 

Nasceu: 15 de Outubro de 1890 à 1.30 da tarde.
Local: Tavira – Portugal

Álvaro de Campos é um engenheiro naval estrangeirado e deprimido que, de acordo com o seu criador,  «Nasceu em Tavira da Serra Grande, teve uma educação exemplar de Liceu; depois foi para Glasgow, Escócia, estudar engenharia naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente Médio de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inatividade.»
_______________________________
In Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935, dando notícias do nascimento de Álvaro de Campos

No dia em que se comemoram 125 anos sobre o nascimento do poeta Álvaro de Campos, publicamos três dos seus poemas.

DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

© ÁLVARO DE CAMPOS
In Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa, 1944
Ed. Ática, Lisboa (imp. 1993)


LISBON REVISITED
(1923)

Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

 © ÁLVARO DE CAMPOS
1923
In Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa, 1944
Ed. Ática, Lisboa (imp. 1993)


MAGNIFICAT

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

© ÁLVARO DE CAMPOS
7-11-1933
In Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa, 1944
Ed. Ática, Lisboa (imp. 1993)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Leituras sugere...





...para outubro




O Planeta Azul

Luísa Ducla Soares


Este mês, a nossa sugestão de leitura é O Planeta Azul.

Mas, afinal, de que planeta falamos?

Já adivinharam! O Planeta Azul está bem perto, debaixo dos nossos pés: é a Terra, bela e original, diversa e cheia de magia, sempre capaz de nos fazer refletir e deslumbrar.

No entanto, a Terra também está sujeita a muitos perigos como a poluição, os incêndios, a falta de água e outros.

Salvar o nosso Planeta é responsabilidade de todos: crianças e adultos.
Neste livro, a autora oferece-nos um conjunto de poemas sobre diversos temas relacionados com o planeta que habitamos.


Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para alunos do 5º e 6º ano sem hábitos de leitura, destinado a leitura orientada.

Um poema...

Outono

Desfolham-se as árvores
E as folhas, voando,
São aves ao vento.

Desfolham-se as árvores
E as folhas, caindo,
São tapetes no chão.

Desfolham-se as árvores 
E os seus braços, nus, 
Pedem um cobertor
De nuvens.

Luísa Ducla Soares, in "O Planeta azul"


Programação mensal | outubro


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Sábados na Biblioteca | 26 de setembro


No dia 26 de setembro, a Biblioteca estará aberta no seu horário habitual:  9h - 12h30 e 13h30 - 18h.