quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Atividades do início do ano letivo

Durante o 1º período escolar, a Biblioteca recebeu as crianças de vários Jardins de Infância dos concelhos de Paredes e Penafiel.
As Histórias de Encantar apresentadas foram “O feijão, a Sra. Palha e o carvão” e “A zebra Camila”.

No dia 16 de Outubro, fazendo referência ao Dia Mundial da Alimentação, no final da história conversamos sobre a Roda dos alimentos e a importância dos bons hábitos alimentares.

Das mãos dos meninos e meninas saíram telas decoradas com a personagem principal da nossa história – o feijão frade.

JI de S. Mamede de Recesinhos + JI de Santa Marta - Penafiel


Centro Escolar de Duas Igrejas 


Um dia, ao sair de casa, o vento bandido levou-lhe sete riscas do seu vestido. Uma aranha, uma serpente, uma cigarra….
…E assim começou a história da zebra Camila…

Em simultâneo com a leitura, foram mostrados diversos adereços e, com a ajuda das crianças que foram contando quantas riscas ainda faltavam à zebra, ficou a saber-se como a Camila resolveu o seu problema. No final, todos coloriram o “vestido” da zebra Camila.

 JI de Trás-as-Vessadas


Centro Escolar Nº 1 de Lordelo

JI de Monte + Centro Escolar de Mouriz


Quem não sonhou alguma vez em dar uma trincadela na Lua? Foi precisamente este o desejo dos animais desta história. Só queriam provar um pedacinho mas, por mais que se esticassem, não eram capazes de lhe tocar. Então, a tartaruga teve uma ideia genial: "Talvez entre todos consigamos alcançá-la".

Foi a história “A que sabe a Lua?” que apresentámos no teatro de fantoches da Biblioteca.
Depois de assistirem ao teatro, os meninos levaram para casa um puzzle da história, colorido por eles, em que a Lua foi pintada da cor do sabor preferido de cada um.

JI de Astromil + JI de Trás-as-Vessadas

Creche ADR - Rebordosa 

JI de Soutelo - Lordelo 

O dia 2 de Dezembro foi um dia especial pois a Biblioteca esteve de parabéns ao comemorar 14 anos de existência. Os meninos ouviram a história “Não acredito no Pai Natal”, animada pelos nossos amigos fantoches. Depois cantaram-se os parabéns à Biblioteca e ao Rodrigo, que também festejou o seu aniversário nesse dia. Para terminar, todos coloriram enfeites de Natal para a nossa árvore especial e ainda levaram uma prendinha doce!

JI de Lagar - Vandoma

JI de Laje - Parada de Todeia + JI de Tanque - Baltar 

JI de Trás-as-Vessadas 


“Já é Natal?” pergunta ele a toda a hora. Mas primeiro há presentes para embrulhar, um bolo para fazer e até a árvore para decorar – há ainda tanto para fazer…

As crianças reconheceram-se na ansiedade do Ursinho pela chegada do Natal, e depois de ouvirem a história, preparam um enfeite para decorar as suas árvores natalícias. E ainda levaram como “prendinha” um livro e um saquinho com gomas e rebuçados.

JI de Astromil + JI de Trás-as-Vessadas





quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Sábados na Biblioteca


15h | Hora de conto seguida de uma atividade de expressão plástica

A Biblioteca estará aberta no seu horário habitual: das 9h - 12h30 e das 13h30 - 18h.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um poema...


NOVO ANO

Sempre que recomeço
eu descuro o tempo
tentando seguir o próprio passo

pelo trilho do ano
que acabou
desenredando os nós

do seu baraço

E aquilo que é futuro
à minha frente
tanto pode ser

rosa como aço

Mas ao querer entender
um outro tempo
eu entreteço

sonho, poesia, liberdade
um ano de luz
no seu começo

Maria Teresa Horta, 31 de Dezembro de 2014 

O Leituras sugere...

...para janeiro


O Mistério do Príncipe Desaparecido
Enid Blyton


O príncipe Bongawah desapareceu da colónia de férias e só há uma pista: dois bebés gémeos! Será que o príncipe foi raptado? Este é um mistério para detetives de calibre como os Cinco Descobridores, que mais uma vez contam com a ajuda do Mané, o sobrinho do Sr. Goon.

Enid Blyton, de nacionalidade inglesa, é autora de muitos livros de aventuras para crianças e adolescentes. Escreveu histórias que ficaram para sempre no imaginário dos portugueses, como Os Cinco ou Os Sete, e criou personagens que ainda hoje fazem parte do nosso quotidiano, como o nosso amigo e tão conhecido Noddy.

O Mistério do Príncipe Desaparecido é uma aventura empolgante, com muito para descobrir!

Bom Ano e Boas Leituras!



TEATRO DE FANTOCHES | janeiro

15 e 29 de janeiro | 10H30

O Peixinho de ouro
      Contos tradicionais da Rússia   



     

HISTÓRIAS DE ENCANTAR | janeiro

8 e 22 de janeiro | 10H30 

O gato e o rato 

Luísa Ducla Soares


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NATAL...a contar!

Este é o terceiro conto que publicamos, alusivo a esta festividade.


O Cesto de Natal da tia Cyrilla 

Mais uma vez, o verdadeiro espírito de Natal é representado neste conto do autor canadiano de Ana dos Bicos Verdes (Anne of Green Gables), como qualquer coisa de simples e familiar. Publicado pela primeira vez em 1903, na revista Young People, este conto é sobre Lucy Rose, a menina arrogante do campo que queria ser elegante e sofisticada. Fica desconcertada com o «provincianismo» da tia Cyrilla e tem vergonha do cesto cheio de iguarias caseiras, que a tia carrega quando vai visitar os familiares. Quando o comboio ficou bloqueado na neve, até mesmo, nos feridos e nos desesperados que havia no meio dos passageiros, despontou uma nova esperança e alento, provocados pela amabilidade de um estranho.


 Quando Lucy Rose encontrou a tia Cyrilla a descer as escadas, algo ofegante e ruborizada pela ida ao sótão, com um cesto enorme, com tampa, enfiado no braço roliço, soltou um pequeno suspiro de desespero. Há alguns anos que Lucy Rose fazia o melhor que podia – de facto, desde que tinha prendido o cabelo e aumentado ao comprimento das saias – para que a tia Cyrilla perdesse o hábito que tinha de levar aquele cesto com ela, sempre que ia a Pembroke; mas a tia Cyrilla insistia em levá-lo e só se ria do que ela apelidava de «ideias afectadas» de Lucy Rose. Lucy Rose achava horrível e extremamente provinciano a tia carregar sempre o cesto consigo, cheio de coisas boas do campo, de cada vez que ia visitar Edward e Geraldine. Geraldine era tão elegante que talvez achasse aquilo estranho; e depois, a tia Cyrilla levava-o sempre no braço, e dava biscoitos, maçãs e chupa-chupas de melaço a todas as crianças que encontrava e, de vez em quando, também a pessoas de idade. Quando Lucy Rose ia à cidade com a tia Cyrilla, sentia-se desgostosa com isto – mas Lucy era ainda muito nova e tinha muita coisa a aprender neste mundo. 
Aquela preocupação incómoda sobre o que Geraldine pensaria, encorajou-a a protestar naquele instante. 
– Ora, tia Cyrilla – apelou – de certeza que, desta vez, não vai levar aquele cesto velho e esquisito consigo para Pembroke, é Dia de Natal e tudo! 
– Claro, claro que vou – respondeu a tia Cyrilla, enquanto o punha em cima da mesa e começava a limpá-lo. – Nunca fui visitar o Edward e a Geraldine, desde que estão casados, sem levar o cesto das coisas boas comigo e não vai ser agora que vou deixar de o fazer. Se é Natal, mais uma razão. O Edward fica sempre muito contente por ter algumas das coisas antigas da casa da quinta. Diz que são muito superiores às cozinhadas na cidade, e são mesmo. 
– Mas é tão provinciano – lamentou-se Lucy Rose. 
– Bem, eu sou da província – disse a tia Cyrilla, firmemente – e tu também. E depois, não vejo motivo para sentirmos vergonha disso. Tens um amor-próprio excessivo, Lucy Rose. Com o tempo há-de passar-te, mas neste momento está a causar-te muitos problemas. 
– O cesto é um problema – disse Lucy Rose, zangada. – A tia está sempre a esquecer-se dele, ou com medo de se esquecer. E parece tão estranho andar pelas ruas com esse cesto grande e bojudo no braço. 
– Não estou nada preocupada com as aparências – respondeu a tia Cyrilla, calmamente. – Quanto a ser um problema, ora, talvez seja, mas é um hábito meu e outras pessoas apreciam. O Edward e a Geraldine não precisam disto – eu sei – mas pode haver quem precise. E se caminhares ao lado de uma mulher velha e provinciana, com um cesto, fere os teus sentimentos, ora, podes ficar para trás como dantes. 
A tia Cyrilla meneou a cabeça e sorriu bem-humorada, e Lucy Rose, embora mantivesse a sua opinião pessoal, também teve de sorrir. 
– Agora, deixa-me ver – disse a tia Cyrilla, reflectindo e batendo com a ponta do dedo indicador em cima da mesa da cozinha branca como a neve – o que levo? Para já, aquele bolo grande de frutas – o Edward gosta do meu bolo de frutas; e aquela língua cozida fria. Aquelas três tortas de carne picada, também, se não estragam-se antes de voltarmos, ou, então, o teu tio fica doente ao comê-las – torta de carne picada é o seu pecado mortal. E aquele frasco de barro cheio de natas – a Geraldine pode ter muita classe, mas ainda tenho de a ver desprezar umas natas do campo, Lucy Rose. E outro frasco do meu vinagre de framboesa. Aquele prato de biscoitos de geleia e dónutes vão agradar às crianças e encher os pequenos espaços vazios, e podes trazer-me aquela caixa de caramelos que está na despensa e aquele saco de barras de bombons às riscas que o teu tio me trouxe, ontem à noite, ali da esquina. E maçãs, claro – três ou quatro dúzias daquelas boas – e um frasquinho da minha compota de ameixa rainha-cláudia – o Edward vai gostar. E algumas sanduíches e bolo inglês para um lanche para nós. Agora, acho que de mantimentos já chega. Os presentes para as crianças podem ir por cima. Tenho uma boneca para a Daisy, um barquinho que o teu tio fez para o Ray, um lenço de mão em renda de bilros para cada um dos gémeos e a touca de crochet para o bebé. Agora está tudo? 
– Há uma galinha assada fria na despensa – disse Lucy Rose com mal dade – e o porco, que o tio Leo matou, está dependurado no alpendre. Também quer metê-los aí dentro?
A tia Cyrilla exibiu um sorriso amplo. 
– Bem, acho que deixamos o porco em paz; mas uma vez que me lembraste, a galinha também pode ir. Arranjo espaço. 
Apesar dos preconceitos, Lucy Rose ajudou a embalar e, mesmo não tendo sido supervisionada pelo olho da tia Cyrilla, fez tudo muito bem, com muita inteligência e economia de espaço. Mas depois de a tia Cyrilla ter colocado, como toque de acabamento, um ramo de perpétuas cor-de-rosa e brancas e fechado as tampas bojudas com mão firme, Lucy Rose ficou junto do cesto e murmurou vingativamente: 
– Um dia, vou queimar este cesto – quando tiver coragem suficiente. Então, será o fim e deixará de o levar consigo para todo o lado, como uma velha vendedora da praça. 
O tio Leopold entrou naquele preciso momento, meneando a cabeça com ar de dúvida. Não iria passar o Natal com Edward e Geraldine, e talvez a perspectiva de cozinhar e de comer o seu jantar de Natal sozinho o deixasse pessimista. 
– Desconfio, que vocês não vão conseguir chegar a Pembroke amanhã – disse com sabedoria. – Vem aí uma tempestade. 
A tia Cyrilla não se preocupou com isso. Acreditava que assuntos deste tipo estavam predeterminados, e dormiu tranquilamente. Mas Lucy Rose levantou-se três vezes durante a noite para ver se havia temporal e, quando adormeceu, teve pesadelos horríveis com lutas no meio de tempestades de neve ofuscante que arrastavam para longe o cesto da tia Cyrilla.
De manhã cedo, não estava a nevar e o tio Leopold levou a tia Cyrilla, Lucy Rose e o cesto até à estação, que ficava a quatro quilómetros de distância. Quando chegaram lá, o ar estava carregado de flocos flutuantes. O chefe da estação vendeu os bilhetes com um ar mal-disposto. 
– Se vier mais neve, os comboios talvez atrapalhem o Natal – disse. – Tem nevado tanto que o tráfico já está a ficar bloqueado, e é difícil retirar a neve para restabelecer a circulação. 
A tia Cyrilla disse que, se estivesse previsto que o comboio chegasse a tempo do Natal a Pembroke, chegaria; abriu o cesto e deu ao chefe da estação e a três rapazinhos uma maçã a cada um. 
– Isto é só o começo – suspirou fundo Lucy Rose. 
Quando o comboio delas chegou, a tia Cyrilla instalou-se num banco, colocou o cesto no outro e olhou sorridente à sua volta para os companheiros de viagem. 
Havia poucos – uma mulher delicada ao fundo da carruagem, com um bebé e mais quatro crianças, uma jovem no meio do corredor com um rosto pálido e bonito, um rapaz, três bancos à frente, vestido com um uniforme caqui, uma senhora muito elegante com um casaco de pele de foca, na frente dele, e um homem jovem, magro e de óculos, do lado oposto. 
– Um sacerdote – reflectiu a tia Cyrilla, começando a classificar – que cuida melhor da alma dos outros do que do seu próprio corpo; e aquela mulher de casaco de pele de foca está triste e zangada com alguma coisa – talvez se tenha levantado demasiado cedo para apanhar o comboio; e aquele jovem companheiro deve ser um dos que saíram há pouco tempo do hospital. Os filhos daquela mulher é como se não tivessem comido uma refeição decente desde que nasceram; e se aquela rapariga do outro lado tem mãe, gostaria de saber o que significa deixar a filha sair de casa, com este tempo, com uma roupa daquelas. 
Lucy Rose apenas se perguntava desconfortavelmente o que pensariam os outros do cesto da tia Cyrilla. 
Contavam chegar a Pembroke naquela noite, mas à medida que o dia passava, a tempestade cada vez se tornava mais violenta. O comboio parou duas vezes para que os ajudantes retirassem a neve.
À terceira vez não conseguiu continuar. Estava escuro quando o condutor deu uma volta pelo comboio, respondendo bruscamente às perguntas dos passageiros ansiosos. 
– Uma boa vigia para o Natal – não, é impossível continuar ou voltar – o caminho está bloqueado durante milhas – o que é isso minha senhora? – não, não existe nenhuma estação perto – só existem milhas de bosque. Ficamos aqui esta noite. Estas últimas tempestades têm causado muitos prejuízos em tudo. 
– Oh, meu Deus – suspirou Lucy Rose. 
A tia Cyrilla olhou para o cesto com satisfação. 
– De qualquer forma, não morreremos de fome – disse. 
A rapariga bonita e pálida parecia indiferente. A senhora com o casaco de pele de foca parecia mais zangada do que nunca. O rapaz de caqui disse «só a minha sorte» e duas das crianças começaram a chorar. A tia Cyrilla tirou do cesto algumas maçãs e barras de caramelos às riscas, e deu-lhos. Pôs o mais velho no seu colo amplo, e rapidamente os tinha todos à sua volta, rindo satisfeitos. 
Os passageiros restantes afastaram-se para um canto e começaram a falar casualmente. O rapaz de caqui disse que, afinal de contas, era pouca sorte não chegar a casa para o Natal. 
– Fui, há três meses, afastado do serviço militar na África do Sul por invalidez, e desde então, tenho estado no hospital. Cheguei a Halifax há três dias e telegrafei aos meus velhos amigos a dizer que jantaria com eles no dia de Natal e que tivessem um perú de tamanho extra, porque não comi nenhum o ano passado. Vão ficar extremamente desapontados. 
O rapaz também parecia desapontado. Uma das mangas do uniforme caqui estava vazia. A tia Cyrilla passou-lhe uma maçã. 
– Nós íamos todos passar o Natal a casa do avô – disse, com tristeza, o filho mais velho da jovem mãe. – Nunca lá estivemos antes. É terrível! 
Parecia que queria chorar, mas pensou melhor no assunto e encheu a boca com mais uma dentada de rebuçado. 
– Será que vai haver Pai Natal no comboio? – perguntou a irmã pequena a chorar. – O Jack diz que não. 
– Tenho a certeza de que o Pai Natal vai descobrir-te – disse a tia Cyrilla de uma forma tranquilizadora. 
A jovem bonita e pálida aproximou-se e tirou o bebé à mãe cansada. 
– Que coisinha fofa – disse com meiguice. 
– Também vais a casa passar o Natal? – perguntou a tia Cyrilla. 
A rapariga meneou a cabeça. 
– Não tenho casa. Neste momento, não passo de uma empregada de balcão sem trabalho, e vou até Pembroke para procurar um. 
A tia Cyrilla dirigiu-se ao cesto e tirou a caixa de caramelos de nata. 
– Penso que também devemos divertir-nos. Vamos comer tudo e passar o tempo da melhor maneira possível. Talvez cheguemos a Pembroke de manhã. 
O pequeno grupo começou a ficar cada vez mais animado à medida que petiscavam, e até a rapariga pálida ficou mais alegre. A jovem mãe contou a sua história à tia Cyrilla. Tinha sido afastada da família há muito tempo, porque não estavam de acordo com o seu casamento. O marido tinha morrido no Verão passado e deixou-a em circunstâncias muito precárias. 
– O meu pai escreveu-me a semana passada e pediu-me para esquecer o passado e vir a casa passar o Natal. Fiquei tão contente. E as crianças não pensavam em outra coisa. É horrível não conseguir lá chegar. Tenho de voltar para o emprego na manhã a seguir ao Natal. 
O rapaz de caqui aproximou-se de novo e partilhou do caramelo. Contou histórias divertidas sobre as operações militares na África do Sul. O sacerdote também se aproximou e ficou a ouvir, e até a senhora do casaco de pele de foca olhou para trás. 
Mais tarde, as crianças adormeceram, uma no colo da tia Cyrilla, outra no de Lucy Rose e duas no banco do comboio. A tia Cyrilla e a rapariga pálida ajudaram a mãe a fazer camas para eles. O sacerdote cedeu o sobretudo e a senhora do casaco de pele de foca aproximou-se com um xaile. 
– Isto serve para o bebé – disse. 
– Temos de arranjar um Pai Natal para estes jovens – disse o rapaz de caqui. – Vamos pendurar as meias deles na parede e enchê-las o melhor que pudermos. Não tenho mais nada, a não ser umas moedas e um canivete. 
– Eu também só tenho dinheiro – disse a senhora do casaco de pele de foca. A tia Cyrilla olhou para a jovem mãe. Tinha adormecido com a cabeça encostada às costas do banco. 
– Tenho ali um cesto – disse a tia Cyrilla com firmeza – e tenho lá alguns presentes que estavam destinados aos filhos do meu sobrinho. Vou dá-los a estas crianças. Quanto ao dinheiro, penso que a mãe está a precisar. Contou-me a sua história e é digna de pena. Vamos fazer uma colecta entre nós para um presente de Natal. 
A ideia foi bem acolhida. O rapaz de caqui passou o boné e todos contribuíram. A senhora de casaco de pele de foca colocou lá uma nota amarrotada. Quando a tia Cyrilla a endireitou, viu que se tratava de uma nota de vinte dólares. 
Entretanto, Lucy Rose tinha trazido o cesto. Sorriu para a tia Cyrilla, enquanto o arrastava até ao corredor, e a tia Cyrilla devolveu-lhe o sorriso. Lucy Rose nunca tinha tocado naquele cesto por iniciativa própria. 
O barco de Ray foi para Jack, a boneca de Daisy para a irmã mais velha, os lenços de mão de renda dos gémeos para as duas meninas mais pequenas e o gorro para o bebé. Depois, as meias foram enchidas com dónutes e biscoitos de geleia, e o dinheiro foi colocado dentro de um envelope e preso com um alfinete ao casaco da jovem mãe. 
– Aquele bebé é tão fofinho – disse a senhora do casaco de pele de foca. Faz-me lembrar o meu filhinho. Morreu há dezoito natais. 
A tia Cyrilla pôs a mão em cima da luva de pelica da senhora. – O meu também – disse. 
E depois, as duas mulheres sorriram com ternura uma para a outra. Mais tarde, descansaram um pouco das tarefas e todos comeram o que a tia Cyrilla chama um «lanche» de sanduíches e bolo inglês. O rapaz de caqui disse que nunca tinha provado nada nem de longe tão bom, desde que saíra de casa. 
– Na África do Sul não nos davam bolo inglês – disse. 
Quando amanheceu, a tempestade ainda era intensa. As crianças acordaram e ficaram loucas de alegria com as meias. A jovem mãe encontrou o envelope e tentou exprimir um agradecimento, mas não conseguiu; e ninguém sabia o que dizer, nem o que fazer, quando, felizmente, o condutor veio fazer uma digressão para lhes dizer que talvez tivessem de se conformar com a ideia de passar o Natal no comboio. 
– Isto é grave – disse o rapaz de caqui – considerando que não temos provisões. Por mim não há problema, estou habituado a rações de combate, ou até a nenhuma. Mas estas crianças vão ter um apetite enorme. 
Então, a Tia Cyrilla mostrou-se à altura para a ocasião. 
– Tenho aqui algumas rações de emergência – anunciou. – Há comida suficiente para todos e vamos ter o nosso jantar de Natal, embora frio. Primeiro, o pequeno-almoço. Há uma sanduíche para cada um e só temos de completar com o que sobrou de biscoitos e dónutes, e guardar o resto para uma refeição verdadeiramente boa ao jantar. A única coisa que não tenho é pão. 
– Tenho uma caixa de bolachas de água e sal – disse a jovem mãe, ansiosa. 
Ninguém na carruagem iria esquecer aquele Natal. Para começar, depois do pequeno-almoço, tiveram um concerto. O rapaz de caqui deu dois recitais, cantou três canções e fez um solo de assobio. Lucy Rose deu dois recitais e o sacerdote fez uma leitura de histórias cómicas. A pálida empregada de balcão cantou duas canções. Todos concordaram que o solo de assobio do rapaz de caqui tinha sido o melhor número, e a tia Cyrilla deu-lhe um ramo de perpétuas como prémio de mérito. 
Depois, o maquinista veio com notícias mais animadoras, dizendo que a tempestade estava quase a passar e que pensava que o caminho ficaria livre dentro de algumas horas. 
– Se conseguirmos chegar até à próxima estação, ficaremos todos bem – disse. – O ramal une-se ali à linha principal e os trilhos estarão limpos. 
À tardinha, jantaram. Os ajudantes do comboio foram convidados a participar. O sacerdote trinchou a galinha com o canivete do homem do vagão do travão e o rapaz de caqui cortou a língua e as tortas, enquanto a senhora do casaco de pele de foca misturava o vinagre de framboesa com a devida proporção de água. Pedaços de papel serviram de pratos. O comboio forneceu dois copos, e foi encontrada uma lata de meio litro de água e dada às crianças. 
Todos declararam que nunca tinham desfrutado tanto de uma refeição em toda a sua vida. Foi, de facto, uma refeição muito divertida, e os cozinhados da tia Cyrilla nunca foram tão apreciados; de facto, só sobraram os ossos da galinha e os frascos das compotas. Não puderam comer as compotas, porque não tinham colheres, por isso, a tia Cyrilla deu-as à jovem mãe. 
Quando tudo terminou, foi feito um voto sincero de agradecimento à tia Cyrilla e ao seu cesto. A senhora do casaco de pele de foca quis saber como é que ela fazia o bolo inglês e o rapaz de caqui pediu-lhe a receita dos biscoitos de geleia. E quando, duas horas mais tarde, o maquinista veio anunciar que o limpa-neve tinha chegado e que, em breve, retomariam o caminho, todos se 
interrogaram se só teriam passado menos de vinte e quatro horas desde que se conheceram. 
– Sinto que estive com a senhora no campo de batalha toda a minha vida – disse o rapaz de caqui. 
Saíram todos na primeira estação. A jovem mãe e os filhos tiveram de apanhar o comboio seguinte de volta para casa. O sacerdote ficou ali, o rapaz de caqui e a senhora do casaco de pele de foca mudaram de comboio. A senhora do casaco de pele de foca deu um cumprimento de mão à tia Cyrilla. Não voltara a mostrar-se triste nem zangada. 
– Foi o Natal mais agradável que alguma vez passei – disse com convicção. – Nunca irei esquecer-me desse seu cesto maravilhoso. A empregadinha de balcão vai para minha casa. Prometi-lhe um lugar na loja do meu marido. 
Quando a tia Cyrilla e Lucy Rose chegaram a Pembroke, não havia ninguém à espera delas, pois todos haviam desistido. A casa de Edward não era muito longe da estação e a tia Cyrilla decidiu ir a pé. 
– Eu levo o cesto – disse Lucy Rose. 
A tia Cyrilla acedeu com um sorriso. Lucy Rose sorriu também. 
– É um velho cesto abençoado – disse a última – e adoro-o. Por favor, esqueça todas as patetices que sempre disse sobre ele, tia Cyrilla. 

L. M. Montgomery 
Ian Whybrow (org.) 
O grande livro do Natal 
Porto, Edições Asa, 2004 
Adaptação



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

NATAL...a contar!



Publicamos o segundo conto alusivo a esta festividade.

O Espírito do Natal


Estava o Senhor Teotónio, que era rico, muito gordo e grande fumador de charutos, a carregar o carro com os presentes que passara a manhã a comprar para os filhos, para os sobrinhos e para as muitas pessoas com quem fazia negócios, quando se aproximou dele um homem pobre, idoso e magro, que prontamente obteve dele esta resposta:
— Comigo não perca tempo porque não tenho dinheiro trocado, nem alimento falsos mendigos.
— Mas eu não lhe pedi nada — respondeu o homem idoso serenamente, com um sorriso que desarmou o Senhor Teotónio e a sua bazófia de novorico.
— Então se não me quer pedir nada, por que motivo está tão perto de mim enquanto eu carrego o meu carro? — perguntou o Senhor Teotónio entre duas baforadas de charuto que fizeram o homem idoso e magro tossir convulsivamente.
— Estou aqui, meu caro senhor — respondeu ele, já refeito da tosse — para tentar perceber o que as pessoas dão umas às outras no Natal.
— Com que então — concluiu ironicamente o Senhor Teotónio, grande construtor civil com interesses de norte a sul do País — temos aqui um observador! Deve ser, certamente, de uma dessas organizações internacionais que nós pagamos com o nosso dinheiro e que não sabemos bem para que servem.
— Está muito enganado. Mas já agora responda à minha pergunta: o que é que as pessoas dão umas às outras no Natal? — insistiu o homem pobre, idoso e magro.
— Bem, se quer mesmo saber, eu digolhe. Quem tem posses como eu pode comprar uma loja inteira, deixando toda a gente feliz, a começar nos comerciantes e a acabar nas pessoas que vão receber os presentes. Quem é pobre como você fica a assistir. Percebeu a diferença?
O homem magro e idoso reflectiu uns instantes sobre a resposta seca e sarcástica do Senhor Teotónio e depois respondeulhe com uma nova pergunta:
— Então e o espírito do Natal?
— O que vem a ser isso do espírito do Natal? — quis saber, cheio de curiosidade, o Senhor Teotónio.
— O espírito do Natal — respondeu o homem idoso e magro — é aquilo que nos vai na alma nesta altura do ano e que está muito para além dos presentes que damos. Para muitas pessoas, o melhor presente pode ser um telefonema, uma carícia ou um telefonema quando se está só.
— Era só o que me faltava — desabafou, enfastiado, o Senhor Teotónio, enquanto arrumava os últimos presentes na mala do automóvel — ter agora um filósofo, ainda por cima vagabundo, para aqui a debitar sentenças.
O homem magro e idoso afastouse do carro, mostrando que não queria esmolas nem qualquer outra coisa que lhe pudesse ser dada pelo Senhor Teotónio, e encaminhouse para um grupo de crianças que o esperavam.
Quando o Senhor Teotónio passou por eles no carro,ouviu uma voz de criança a dizer:
— Vamos, Espírito do Natal, porque hoje ainda temos muito que fazer.
Dizendo isto, o grupo ergueuse no ar a esvoaçar com destino incerto, largando um pó luminoso enquanto ganhava altura no céu cinzento de Dezembro.


José Jorge Letria
A Árvore das Histórias de Natal
Porto, Ambar, 2006